Em um cenário global onde a ascensão da inteligência artificial (IA) gera apreensão sobre a segurança no emprego, com pesquisas indicando que uma parcela significativa da população teme demissões em decorrência do avanço tecnológico, o iFood adota uma estratégia distinta. Enquanto gigantes da tecnologia como Google, Amazon, Meta e Microsoft anunciam cortes em meio à expansão da IA, a empresa brasileira de delivery trilha um caminho de crescimento no quadro de colaboradores.
A preocupação com a perda de postos de trabalho é palpável, com metade dos americanos e 48% dos brasileiros expressando receio de que a IA possa impactar suas carreiras. Contudo, o iFood não apenas ampliou o uso de inteligência artificial em suas operações, mas também expandiu sua equipe. A companhia, que contava com 2 mil funcionários há seis anos, alcançou 5 mil no fim de 2024 e, no ano passado, chegou a 8 mil colaboradores, carinhosamente chamados de FoodLovers. Paralelamente, 27 mil agentes de IA foram integrados aos processos e à rotina da empresa, desenvolvidos conforme as necessidades surgiam.
Estratégia de IA no iFood: ganhos graduais e foco em valor
Raphael Bozza, VP de Pessoas do iFood, oferece uma perspectiva transparente sobre o impacto da IA na empresa. Ele explica que a maior parte do investimento em inteligência artificial resulta em ganhos incrementais no dia a dia. Mais de 85% das aplicações não geram um efeito substancial na produtividade, mas trazem melhorias contínuas, como a consolidação de informações.
Uma parcela de 13% das iniciativas de IA já provoca um impacto mais notável nas equipes, proporcionando análises aprimoradas, maior padronização e velocidade nos processos. No entanto, Bozza destaca que apenas 2% das aplicações são verdadeiramente transformadoras, capazes de alterar significativamente os rumos e resultados do iFood. Essa honestidade sobre os retornos da tecnologia é incomum no ambiente corporativo, onde a IA é frequentemente apresentada como uma revolução imediata.
Apesar do crescimento contínuo no número de contratações nos últimos anos, a empresa projeta uma estabilização temporária no patamar de 8 mil funcionários, enquanto intensifica o uso da IA. O foco está em investir na formação e capacitação das equipes, preparando-as para lidar com as transformações do mercado e para potencializar o uso dessas ferramentas. Bozza ressalta que o valor de uma empresa não deve ser medido apenas pelo número de colaboradores, mas sim pelo impacto gerado por essas pessoas.
Capacitação e atração de talentos para a era da IA
A cultura de inovação do iFood se reflete na alta adesão às ferramentas de inteligência artificial. Atualmente, 92% dos funcionários do escritório utilizam tecnologias baseadas em IA. Para alcançar esse índice, a empresa implementou um programa abrangente que incluiu a apresentação dos potenciais usos da tecnologia, seguida por workshops e bootcamps focados em como aplicar essas ferramentas no cotidiano de trabalho. A experiência demonstra que a adoção se torna mais fácil quando os colaboradores percebem que a IA pode otimizar tarefas simples, liberando tempo para atividades mais complexas e estratégicas.
O apelo do iFood como empresa de tecnologia com mais de 60 milhões de usuários é evidente entre estudantes universitários em busca de oportunidades no mercado. O programa de estágio GenAI, voltado para a área de tecnologia, atraiu 20 mil candidatos para apenas 10 vagas no ano passado. Devido à alta qualidade dos inscritos, o número de aprovados foi expandido para 31, demonstrando o compromisso da empresa em identificar e nutrir jovens talentos.
Além de investir na contratação de jovens, o iFood desenvolveu estratégias internas robustas. Um programa de multiplicadores, composto por 100 funcionários, tem a missão de impulsionar o uso da tecnologia em todas as áreas, oferecendo suporte e orientação aos colegas. O executivo defende que a área de Pessoas deve assumir um papel central na transformação da IA de uma simples ferramenta para um elemento verdadeiramente transformacional na organização.
A empresa também está ativamente contratando analistas, cientistas e engenheiros de dados para funções integralmente dedicadas à IA. Adicionalmente, o iFood experimenta a função de “super IC” (Contribuidores Individuais), com sete profissionais de alta senioridade focados em resolver problemas complexos da empresa. Nesse modelo, a flexibilidade é total, permitindo que esses especialistas solicitem as ferramentas de IA necessárias para suas missões.
Expansão da inteligência artificial para além do escritório
A influência da inteligência artificial no iFood se estende para além do ambiente de escritório, impactando diretamente uma categoria fundamental para o sucesso da empresa de delivery: os entregadores. As melhorias implementadas por meio da IA estão intrinsecamente ligadas ao aprimoramento do aplicativo utilizado pelos parceiros, visando otimizar suas rotinas e experiências.
Bozza expressa a intenção de capitalizar a experiência adquirida com os 8 mil colaboradores internos no uso da IA para estender esses benefícios àqueles que atuam nas ruas do Brasil. Com uma rede de 600 mil entregadores parceiros, o iFood busca garantir que o desenvolvimento e a aplicação da inteligência artificial gerem resultados positivos para todos os envolvidos: entregadores, parceiros comerciais e consumidores finais. A meta é que cada inovação construída com IA contribua para a eficiência e a satisfação em toda a cadeia de valor.
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Fonte: forbes.com.br