O livro “Entretempos”, de Tamires Vilela, surge como um convite à reflexão sobre os períodos de transição na vida profissional e pessoal. A obra, que chegou em um momento de mudança para a própria autora da resenha, propõe uma imersão nos espaços de incerteza que permeiam as grandes transformações. A discussão sobre o tema, que se estendeu por horas em um almoço em São Paulo, abrangeu desde carreira e maternidade até dinheiro e liberdade, tocando em escolhas que, em algum ponto, demandam revisão.
Para muitos, atravessar uma mudança profissional ou pessoal é adentrar um território desconhecido, um “entretempo” que não é sabático nem férias, mas sim o intervalo entre o que se foi e o que ainda não se sabe se será. Essa fase, embora desafiadora, é um terreno fértil para o autoconhecimento, exigindo, contudo, condições concretas para ser vivenciada, como a manutenção das contas e alguma estrutura para suportar um período de incertezas financeiras e de propósito.
Entretempos: o espaço para a coragem de não saber
Viver um entretempo é um ato de coragem em uma sociedade que frequentemente dita como a vida deve ser vivida. Tamires Vilela questiona a pressão por uma carreira, um cargo, um casamento ou uma maternidade “certos”, bem como a obsessão por produtividade e agendas cheias. Esse período de pausa, para quem pode se permitir, abre espaço para uma pergunta desconfortável e libertadora: o que acontece quando paramos de correr?
A dificuldade reside em desconstruir as expectativas externas e internas, aquelas que nos levam a viver uma vida que, muitas vezes, acreditamos ser a única possível. É o momento de confrontar a “régua” imposta por padrões sociais e reavaliar o que realmente importa.
A redefinição da régua do sucesso em um mundo de performance
A conversa com Tamires Vilela aborda a obsessão contemporânea por performance, que transforma até o descanso em mais uma tarefa a ser cumprida. A autora propõe uma nova perspectiva sobre o sucesso, não como um ponto fixo a ser alcançado, mas como uma “linha” contínua, construída a partir dos valores individuais. A régua que servia aos 25 anos pode não ser mais adequada aos 40, e o sucesso pode ter significados distintos em diferentes áreas da vida.
Vilela introduz o conceito de “riqueza psicológica”, uma vida enriquecida por experiências, repertório, encontros e deslocamentos, que não se limita a bens materiais ou à busca incessante pela felicidade. Viajar, conhecer pessoas, mudar de ideia e experimentar tornam-se, nesse contexto, novas definições de sucesso. O entretempo, assim, muitas vezes se inicia quando a régua tradicional deixa de medir o que verdadeiramente importa para o indivíduo.
O silêncio da transição e a busca por nova relevância
As grandes mudanças profissionais trazem consigo uma fase pouco glamorosa: o silêncio. Aqueles acostumados a uma rotina intensa, repleta de mensagens, convites e reuniões, podem se sentir desorientados quando o ritmo diminui. A relevância, muitas vezes medida pela atenção alheia, pelo cargo ou pela agenda cheia, precisa ser reavaliada.
Quando essa “moeda” de validação externa deixa de circular da mesma forma, surge a necessidade de descobrir novos valores e fontes de reconhecimento. É um dos aspectos mais desafiadores da transição: perceber que aquilo que conferiu valor por tanto tempo não precisa mais ser a medida de quem se é. No entanto, após o susto inicial, há uma liberdade inerente a essa redescoberta.
O “burnout de personagem”: o cansaço de um papel bem-sucedido
Uma expressão marcante do livro é o “burnout de personagem”, que descreve um cansaço não necessariamente do trabalho em si, mas de interpretar uma versão de si mesmo que já não faz sentido. Diferente do esgotamento tradicional, este ocorre mesmo quando há sucesso e reconhecimento externos, tornando a decisão de mudar ainda mais complexa.
É mais fácil abandonar o que deu errado do que o que deu certo. A angústia do entretempo reside em saber que algo mudou, mas sem ter clareza sobre o que ocupará o novo espaço. Em uma sociedade que exige respostas rápidas sobre o próximo projeto, o plano ou o faturamento, a coragem de simplesmente dizer “ainda não sei” torna-se um ato revolucionário.
A experimentação como caminho para novas identidades
Tamires Vilela descreve seu próprio entretempo como um convite à experimentação, uma abordagem que alivia a pressão de chegar imediatamente a um destino. Em vez de substituir uma identidade por outra, ela propõe explorar diferentes caminhos. Sua “carreira-portfólio” exemplifica essa ideia, combinando aulas, investimentos, escrita e projetos de comunicação.
Nesse modelo, nem todas as atividades precisam gerar dinheiro; algumas oferecem repertório, outras, puro prazer. Essa perspectiva desafia a tendência de monetizar todo interesse, permitindo que certas paixões existam apenas por serem gratificantes. A descoberta do “sim” verdadeiro, segundo a autora, só é possível através da experimentação constante.
Desvendando o roteiro da vida: a liberdade das escolhas aos 40
A discussão se expande da carreira para a vida, especialmente para a experiência feminina aos 40 anos. Essa idade, hoje, é marcada por uma diversidade de roteiros: mulheres tendo o primeiro filho, outras optando por não ter; casadas há anos, separando-se ou iniciando novos relacionamentos; no auge de uma carreira ou recomeçando do zero. O roteiro previsível de estudar, trabalhar, casar, ter filhos e permanecer em uma mesma trajetória explodiu.
Essa ausência de um roteiro único oferece uma liberdade imensa, mas também pode ser fonte de angústia. Com tantas possibilidades, a tentação de copiar a carreira, o casamento ou a maternidade de outros, buscando uma vida que parece funcionar bem “de fora”, é grande. O desafio reside em construir um caminho autêntico, abraçando a individualidade das próprias escolhas. Para mais informações sobre o universo dos negócios e economia, visite Forbes Brasil.
Fonte: forbes.com.br